Habilidade de comunicação, questão de vida ou morte.

É uma manhã como outra qualquer, uma caneca com café bastante adoçado permanece sobre a mesa. As formigas acham este artefato e começam a entrar, mas não conseguem sair e eventualmente se afogam. Mais e mais formigas se amontoam na mesma caneca, e a situação se repete inúmeras vezes. Elas veem os outros corpos e mesmo assim não tiram nenhuma conclusão. Apesar das suas habilidades de comunicação, elas falham em comunicar o perigo e dar um diagnóstico sobre como evitá-lo. Parece tolice, mas é um lembrete sobre como experiência, memória, aprendizado, habilidades racionais, senso comum, habilidades de comunicação, perspicácia, compaixão, cognição e compreensão são elementos fundamentais para se ter um comportamento inteligente. É um lembrete sobre como nós estamos igualmente expostos a possibilidade de nos comportarmos da mesma forma, uma vez que um comportamento tolo ou inteligente pode ser resultado de um processo de comunicação bem ou mal sucedido, e que em qualquer caso informação é a chave.

A realidade atual da indústria da construção civil, mostra que agimos exatamente como formigas se afogando. Constantemente vemos projetos atrasados em seu cronograma, fugindo de seu escopo e ultrapassando seu orçamento, e mesmo vendo tanta ineficiência, falhamos em um diagnóstico.

Nossa indústria possui processos antiquados, fragmentados, com muitos stakeholders e com muitas falhas de comunicação. Problemas sérios, sistêmicos e muito comuns. Mesmo sabendo de tudo isso, persistimos nos mesmos erros e mantemos padrões e processos não funcionais. Prova disso é que nossa indústria, quando comparada com as demais, é altamente improdutiva. Enquanto as demais indústrias, ao longo dos anos, encararam um aumento crescente de produtividade, nossa indústria se manteve estagnada, ousando dizer que enfrentou uma perda de produtividade nos últimos anos. Isso é assustador considerando todas as tecnologias existentes. Mas não se trata apenas da disponibilidade, e sim de sua aplicação, que em nossa indústria também continua ocorrendo de forma bastante lenta.

Em um mundo cada vez mais conectado, onde indústrias de outros nichos são responsáveis pela disrupção de indústrias tradicionais, a lei que se aplica é: mude suas práticas agora ou desapareça. Os ícones clássicos que exemplificam esse mundo de disrupção constante são: Uber, Airbnb, Alibaba, Netflix… Então, antes que isso aconteça em nossa industria, é melhor que nós sejamos os responsáveis pela sua mudança. E a digitalização é a saída.

A digitalização integra os elos da cadeia produtiva, por meio da utilização de ferramentas e práticas baseadas em tecnologia de informação e comunicação, que já não são meros instrumentos para ajudar as empresas a fazerem as mesmas coisas um pouco melhor, mas sim bases fundamentais. As ferramentas e práticas baseadas em ICT (Information and Communication Technologies) transmitem, armazenam e usam dados de todos os tipos, de forma que possam ser transformados em informações, quando colocados em contexto e devidamente categorizados. Informações essas que otimizam a tomada de decisão, planejamento, registro de atividades, consistência na comunicação… Evitando a continuidade de um comportamento ilógico.

O problema que enfrentamos na indústria AEC está justamente na qualidade dos dados que possuímos, pois o sucesso da aplicação de ICTs depende destes. Tanto nas etapas de projeto, quanto nas etapas de construção se extendendo até a operação e manutenção de nossas construções, temos dados de baixa qualidade. De acordo com o relatório da MGI, a construção tem os menores números de dados armazenados: 51 Petabytes (em 2009) em comparação com 966 Petabytes da manufatura e 848 Petabytes do governo. Os dados armazenados por empresa também estão entre os mais baixos.

Vamos tomar o BIM (Building Information Modeling) como exemplo, uma construção é feita de elementos, elementos esses que correspondem a produtos reais. Para que um projeto realizado utilizando tecnologias BIM seja capaz de reproduzir a realidade de forma fiel, com um número mínimo de distorções, é necessária a aplicação de réplicas de produtos reais. Somente com o uso de detalhes é possível se reduzir riscos, garantir maior previsibilidade, melhor desempenho e maiores lucros. Tal como o que já acontece em diversas outras indústrias, como a automobilística, aeroespacial, naval…

Levando adiante, no processo de construção, os dados que obtemos tem uma qualidade ainda pior. A maior parte dos dados que temos são planilhas preenchidas a mão dentro do canteiro por um superintendente, que é tão boa quanto a sua memória ao final do dia. Digamos que aconteceu algum problema, e alguma atividade ultrapassou o orçamento ou o tempo estipulado, então, como algumas vezes, não se quer registrar que isso aconteceu, as horas e os valores são distribuídos em outras atividades, e desta forma todos os seus dados são arruinados.

Então, se queremos obter resultados positivos em termos do uso de ICTs precisamos ter nossa base solidificada, precisamos organizar nossos processos e garantir o uso de dados consistentes. Para solucionar problemas, o segredo está nos detalhes. Somente a partir do gerenciamento, armazenamento, distribuição e manutenção correta destes, é possível que se crie informação de qualidade capaz de gerar conhecimento, aprendizado, memória, experiência e todas as demais características que nos permitem fugir do perigo de uma caneca de café adoçado.

O ponto central é que com dados e informações mais precisas e confiáveis, contando com um fluxo de comunicação otimizado, é possível aplicar tecnologias e obter melhores resultados. É a precisão que você tem em projetos que permite práticas mais eficientes e melhor controle de riscos. Não se trata apenas de inovações, mas de uma base consistente para a aplicação das mesmas.

TUDO ESTÁ NOS DETALHES: QUALIDADE DE DADOS E ENTREGA DE INFORMAÇÕES.

Mariana Macedo

Engenheira Civil, LEED GA, com pós graduação em Gerenciamento e Execução de Empreendimentos da Construção Civil atualmente realizando mestrado profissional em Gerenciamento de Projetos na USP e MBA em Business Intelligence. É Business Developer da BIMObject, além de ser super sorridente, entusiasta e feliz (quase o tempo todo).

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