Entraves técnicos e dificuldades de uma implantação BIM

Ao implementar o BIM, nem tudo são flores!

O maior desafio de uma implantação de novas tecnologias se dá em alterar a forma como engenheiros sêniors adotam novas práticas. Tais líderes de equipe possuem décadas de experiência com clientes, desenvolveram métodos próprios, possuem familiaridade com as ferramentas e procedimentos realizados, etc. O desafio é unir, na transição CAD-BIM, a experiência desses profissionais com as novas capacidades que o BIM oferece, de forma a otimizar a produtividade da empresa (EASTMAN et al., 2011).

No BIM Handbook, Eastman et al. (2011) define algumas maneiras de solucionar esse obstáculo:

1. Unir jovens com conhecimento na tecnologia com profissionais experientes de forma a integrar a nova metodologia;
2. Visitar empresas que já fizeram a transição BIM, participar de seminários, congressos, etc;
3. Realizar treinamentos individuais semanalmente ou em cronograma similar;
4. Organizar treinamentos para as equipes de design em ambientes externos à empresa de forma descontraída.

O segundo maior desafio em qualquer firma é a mudança da composição de trabalho com respeito às habilidades técnicas. Devido ao fato de que a documentação de projetos é automatizada com o BIM, engenheiros juniors e estagiários são cada vez menos requisitados, visto que o trabalho manual é feito automaticamente através de softwares. Dessa forma, é requerido mais dedicação por engenheiros e arquitetos sêniors nas fases iniciais de concepção e design, como podemos observar na tabela 1.

Tabela de Mudança de composição de trabalho em um projeto típico.

Calma, estagiários. Isso não quer dizer que vocês serão demitidos, mas vocês terão que desenvolver mais competências técnicas para realizar trabalhos mais produtivos. Já se foi o tempo que os estagiários ficavam apenas limpando pranchas. Por que não usar a força de trabalho que temos para desenvolver a criatividade projetual e deixar o computador fazer o trabalho pesado, certo empresários?

Sabe-se que a prática BIM traz inúmeros benefícios nas fases de designconstrução. Entretanto, o uso inteligente da metodologia provoca mudanças significativas nos relacionamentos, comunicação e contratos legais. Enquanto o BIM oferece novos métodos de colaboração entre os envolvidos, surge com isso novos desafios na formação de equipes efetivas (EASTMAN et al., 2011).

6a017c3334c51a970b01bb07b644d8970d

Fonte: Autodesk (2016)

Se o arquiteto e o engenheiro estrutural, por exemplo, usam plataformas diferentes na concepção e detalhamento dos seus documentos, será necessária a implantação de ferramentas BIM que unifique os modelos (Navisworks, Solibri). Essa necessidade pode aumentar os riscos do projeto, causar custos adicionais e aumentar a complexidade (EASTMAN et al., 2011).

Ainda, segundo Eastman et al. (2011), embora a elaboração de um modelo BIM possa custar mais que um desenho CAD, a escolha daquele é justificada pelas vantagens subsequentes atribuídas, como o planejamento de construção e design detalhado para mecânica, hidrossanitário, elétrica e estrutura, revisões de design, análises, simulações, etc.

Além de aspectos comunicativos, existem desafios à respeito da incumbência legal da gestão, visto que a interoperabilidade traz questionamentos sobre quem será o responsável por cada tarefa, já que todos os envolvidos trabalham em integração. Dessa forma, quem pagará pelo modelo? Quem será o responsável pela precisão, análise e compatibilização? Esses problemas são encontrados na maioria das implantações BIM, mas podem ser solucionados com o uso dos “Manuais de Escopo de Projeto” e melhores definições contratuais.





Mesmo com tais entraves, à medida que investidores e proprietários de empreendimentos começam a aprender sobre os benefícios do BIM para auxiliar nas operações, manutenção e renovação, a metodologia se torna cada vez mais exigida (EASTMAN et al., 2011).

A maior mudança que empresas se deparam com a implantação da tecnologia BIM é saber usar um modelo compartilhado, o building model, durante as fases de concepção e design; e um conjunto de modelos durante as etapas de construção e fabricação. Essa mudança de metodologia necessita tempo e conhecimento para a familiaridade com o processo (EASTMAN et al., 2011).

A substituição de uma metodologia CAD 2D ou 3D pelo BIM envolve aspectos bem além de apenas aquisição de software, hardware e treinamento. É necessária uma mudança dos aspectos gerais da empresa, além de conhecimento da tecnologia e o correto desenvolvimento de um plano de implantação prévio (EASTMAN et al., 2011).

De acordo com Leonardo Manzione (2016), em estudo realizado por seu orientando Willian Santos, são apontados alguns fatores pessoais, tecnológicos e de gestão como dificultadores da implementação BIM. Veja a matéria original clicando aqui (Site da coordenar).

São eles:

• FATORES PESSOAS

1. Falta de tempo e planejamento para a aquisição do conhecimento;
2. Falta de consultor técnico (cultura BIM inexistente);
3. Resistencia à mudanças pela equipe (em geral pelos funcionários
mais experientes);
4. Dificuldade em trabalhar em equipe simultaneamente;
5. Falta de trabalho em parceria / relação com complementares/ relações
conflitantes e não cooperativas. Conflito entre as diversas disciplinas,
risco na produtividade, retrabalhos e perda de prazos;
6. Falta de conhecimento dos princípios enxutos;
7. Medo do desconhecido x falta de interesse pela nova tecnologia;
8. Falta de conhecimento do que é BIM;
9. Fixação em cultura operacional própria. Dificuldade em integração e
colaboração com processos padronizados;
10. Falta de conhecimento da estratégia do negócio e competitividade;
11. Falta de clareza nos itens de fases e etapas do projeto;
12. Falta de avaliação no início e no fim de cada etapa, deixando pendências
para fase seguinte;
13. Falta de conhecimento dos softwares adequados às atividades necessárias;
14. Escassez de mão de obra especializada, alta rotatividade de cooperadores,
estagiários, arquitetos, engenheiros;
15. Remuneração de profissionais qualificados: são necessárias mais
horas de profissionais de alta qualificação nas primeiras etapas de projeto,
pois estas são mais caras que no processo tradicional;
16. Composição das equipes de projeto, dimensionamento para atender
mais de um projeto simultaneamente;
17. Compartilhamento de responsabilidade, nova cultura dos agentes
da construção;
18. Dificuldade na percepção individual do quadro de necessidades do
produto;
19. Dificuldade em identificar perdas e as causas de ocorrência;
20. Falta de autonomia de profissionais para solução de problemas;
21. Falta de disponibilidade de tempo para visitar a obra;
22. Mudança de prioridades em etapas avançadas;
23. Mau uso de materiais, especificação de material fora de fabricação;
24. Erro na representação de elementos, dificuldade na compatibilização,
de responsabilidade do projetista de arquitetura;
25. Mudanças nos órgãos reguladores, sem prévio aviso ou descuido
de consultor;
26. Adaptação e mudanças necessárias à nova maneira de trabalhar;
novo fluxo de trabalho, treinamento da equipe e atribuição de novas
responsabilidades;
27. A difícil transformação para o ‘pensamento em BIM’ na parte de
recursos humanos;
28. Convencer a liderança dos benefícios do BIM;
29. A falta de conhecimento da tecnologia pela equipe de projeto e
dentro da organização é a principal razão para não implementar;
30. Conscientizar-se de que a transição é crítica para todos, que é
imprescindível a difusão do conhecimento dos potenciais e das responsabilidades
a todos os colaboradores.

• FATORES DE TECNOLOGIA

1. Falta de infraestrutura de TI – necessidade de equipamentos/computadores
com maior poder de processamentos; isto gera atraso no desenvolvimento
das atividades planejadas;
2. Deficiências próprias do software – desconhecimento da forma correta
de operação, ineficiências e problemas quanto a processar o modelo,
equívocos e deficiência no software adotado;
3. Compatibilidade – uso de software de diferentes fornecedores, falta
de interoperabilidade, conflito entre diversos projetos;
4. Falta de conhecimento dos ganhos para todas as etapas de projeto
associados às novas tecnologias;
5. Nem todos os escritórios complementares utilizam softwares compatíveis
a interoperabilidade;
6. Projeto para complementares deve ir modelado;
7. Falta de detalhamento;
8. Falta de precisão nas informações trabalhadas e recebidas;
9. Inexperiência no desenvolvimento de modelos tridimensionais;
10. Correção de projetos em 2D são difíceis de administrar em todas as
peças gráficas;
11. Problemas em modelagem de elementos, falta de famílias de componentes;
12. Necessidade de adaptação da biblioteca existente no software às
normas brasileiras de construção (considerando que biblioteca original
do software é estrangeira);
13. Facilidade de partilha de informações entre os aplicativos de software
que as utilizam, simulação de processos de construção; apoio as
operações de resposta a emergências;
14. Banco de dados único para o desenvolvimento de projeto, permite
alterações dinâmicas;
15. Melhoria da comunicação interdisciplinar, redundâncias de dados
eliminadas, redução de retrabalho e erros;
16. Necessidade do processo ser continuamente melhorado para maturidade.

• FATORES DE GESTÃO

1. Receber os projetos nos prazos combinados para compatibilizar;
2. Atender à cronogramas;
3. Indecisão do cliente, geração de perdas;
4. Definir ações que reduzem perdas;
5. Falta de incorporação de construtibilidade;
6. Riscos de modificações de projeto por erros não percebidos na fase
de projeto;
7. Prazos dilatados por falta de definições de projeto ou do cliente;
8. Falta de contratos claros em relação ao programa de necessidades;
9. Falta de interações entre os agentes (em tempo necessário as definições);
10. Alterações de projeto, retorno a etapas anteriores;
11. Falta de insumos, dados necessários para concepção e tomadas de
decisão;
12. Falta de fluxo de trabalho confiável;
13. Formulação correta do programa de necessidades;
14. Avaliação da satisfação dos usuários com o produto edificação;
15. Falta de conhecimento de estratégia para alcançar maior nível de
competitividade;
16. Necessidade de integração dos processos relacionados à construção
do produto edificação;
17. Falta de capital necessário para investimento com máquinas e treinamentos
e na implementação;
18. Barreiras econômicas para micro e pequenas empresas;
19. Falta de apoio público à inovação na área de negócios;
20. Dificuldade no dimensionamento de custos de produção;
21. Gestão de recursos humanos, recursos financeiros e tecnológicos;
39
22. Dificuldade em convencer os profissionais a desenvolver uma nova
maneira de projetar diferente do CAD;
23. Uso de softwares não compatíveis com IFC;
24. Atraso em entrega do projeto completo por falta de gestão das
entregas e compatibilizações;
25. Deficiência no esclarecimento do escopo do projeto detalhado,
desde as reuniões iniciais;
26. Falta de definição do nível de desenvolvimento (ND ou LOD);
27. Mudança de cultura no processo de projeto, planejamento e gestão;
exigência de preparação e capacitação prévios;
28. Custo da implantação da modelagem, investimento na compra de licenças
de softwares e novos equipamentos e ao treinamento da equipe;
29. Grandes mudanças em todas as etapas de projeto;
30. Analise dos processos tradicionais e revisão dos seus métodos de
trabalho, reorganização de equipes e definição de novas lideranças e
responsabilidades;
31. Encontrar maneiras de continuar a produção interna de projeto
enquanto simultaneamente implementa a nova tecnologia em projetos
piloto;
32. Mudança na forma de trabalho, atenção e reflexão sobre o negócio,
sobre o planejamento estratégico prevendo custos apropriados de investimentos,
calculando o retorno a curto, médio e longo prazo;
33. Avaliar e reavaliar no momento da implementação, estrutura organizacional,
gestão comercial, gestão financeira, recursos humanos,
sistemas de informação, gestão de projetos;
34. Dificuldade por falta de guias e manuais de implementação e orientação
no uso da modelagem e sua aplicação;
35. Implementação de novos estágios: diagnósticos, plano de ação,
avaliação e correção do plano estratégico;
36. Decisão de atravessar o abismo da inovação e investir em tecnologia;
37. Processos com mudanças fundamentais;
38. Inexperiência no desenvolvimento de modelos tridimensionais.

É interessante ressaltar que diversos desses fatores também podem ser encontrados ao se trabalhar em uma metodologia CAD, não sendo assim, exclusividade do fluxo de trabalho BIM.

Artur Feitosa

Engenheiro Civil e consultor BIM com pós-graduação pela Zigurat Global Institute of Technology - International Master BIM Manager. Atualmente é Coordenador BIM da Construtora Avante, sócio-proprietário do HUB360 Academy, fundador da BIMExperts e certificado profissional Autodesk. Foi bolsista da CAPES pelo programa ciência sem fronteiras onde estudou nas seguintes universidades: Rider University (ELI), Arizona State University (Civil Engineering) e Carnegie Mellon University (Research - BIM). Trabalha com implantação BIM e já palestrou em diversos eventos com foco na área. Seu forte é Building Information Modeling e sua paixão é o empreendedorismo. Mais informações e contato: https://about.me/arturfeitosa LinkedIn: https://br.linkedin.com/in/arturfeitosa

Dúvidas, sugestões ou comentários?

Translate »
%d blogueiros gostam disto: